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Um aplicativo que pode ser usado em tablets e celulares, especialmente criado para permitir um contato direto entre o cirurgião-dentista e o paciente surdo deverá estar disponível para download ainda neste ano. Na verdade, o produto é muito mais do que um aplicativo. Trata-se de uma plataforma desenvolvida no programa de Mestrado em Odontologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

O projeto exigiu uma atuação conjunta dos cursos de Odontologia, Ciência da Computação, Design Gráfico e Letras/Libras, todos da UEL. De maneira muito integrada e criativa, a equipe multidisciplinar especializada reuniu as necessidades dos surdos, da odontologia, do acervo da Língua Brasileira de Sinais (Libras), conceitos de saúde pública e as técnicas do design gráfico.

A ideia de se criar um aplicativo inédito no Brasil foi da profa. Maria Celeste Morita, presidente da Associação Brasileira de Ensino Odontológico (Abeno) e professora associada de Odontologia da UEL. Ela foi a orientadora da dissertação de mestrado desenvolvida pela cirurgiã-dentista Valéria Lima Avelar.

O aplicativo OdontoLibras agora é um protótipo, mas foi aprovado pelos usuários, CDs e surdos, em testes realizados. Um diferencial do aplicativo é que ele permite uma conversa direta e privada entre o CD e o paciente, o que resguarda a privacidade do surdo. O aplicativo não substitui totalmente o intérprete de Libras, mas proporciona mais independência ao paciente surdo.

Embora a Lei 10.436, de 2002, que instituiu Libras como segundo idioma brasileiro, e o Decreto 5.626, de 2005, que regulamentou a legislação e determinou que todas as instituições federais de ensino, desde o pré-escolar até o universitário, devem oferecer também a alternativa de aprendizado em Libras, a realidade brasileira não é bem essa. A lei também determina que todos os serviços públicos de saúde tenham à disposição de pacientes surdos intérpretes de Libras, outro recurso também indisponível. “Os primeiros downloads dessa plataforma de relacionamento entre o CD e o paciente surdo serão autorizados para as Instituições de Ensino Superior (IESs) associadas à Abeno, oferecendo uma ferramenta importante ao ensino de Odontologia no Brasil”, explica a profa. Maria Celeste.

A dissertação de mestrado de Valéria tem o título “Uso de tecnologias móveis no tratamento odontológico para a comunicação com o paciente surdo” e foi defendida na UEL em 18 de fevereiro deste ano.

 

Montando a equipe

Para iniciar o projeto, Valéria conta que precisou “mergulhar” no universo dos não ouvintes. “Eu não conhecia nada sobre o assunto, mas logo compreendi que não bastava criar um aplicativo, era preciso criar imagens específicas e sinais.” Esse é outro grande diferencial do aplicativo, que não é uma tradução simplesmente, é um conjunto de informações compreensíveis tanto para o cirurgião-dentista como para o surdo, um sistema de informação em “OdontoLibras.”

A maior parte dos termos odontológicos como tratamento de canal, periodontia e implante, por exemplo, não existe na linguagem de sinais, então foi preciso criar esses sinais.

Como os sinais em Libras precisam ser elaborados por surdos, o professor de Libras da UEL, Antônio Aparecido de Almeida, que é surdo, criou os sinais dos termos odontológicos. Para que Valéria pudesse conversar com ele, era necessário um intérprete de Libras. E Thalita da Rocha Marandola, enfermeira que faz mestrado em saúde pública na UEL e é fluente em Libras, se incorporou à equipe.

As imagens que aparecem no aplicativo foram desenvolvidas especificamente para o projeto pelo aluno do curso de Design Gráfico André Felipe Bergamim, com orientação da profa. Vanessa Tavares de Oliveira Barros.

Os sinais criados precisavam ser disponibilizados para uso em meio eletrônico, função que ficou a cargo do coordenador do curso de Ciência da Computação Rodolfo Miranda de Barros. Também fizeram parte da equipe multidisciplinar as profas. Elisa Emi Tanaka Carloto e Maura Sassahara Higasi, do curso de Odontologia.

 

Divisão em etapas

A primeira etapa do projeto foi dividir o atendimento odontológico em quatro fases: acolhimento, anamnese, prevenção em saúde bucal e tratamento das doenças bucais. “Para o acolhimento, foram selecionados termos já sinalizados como bom dia, boa tarde, sente dor”, explica Valéria.

A anamnese do aplicativo foi elaborada tendo como base documentos do CFO e da UEL. Aos questionamentos do CD, o paciente tem de responder sim, não ou não sei. No aplicativo há ainda as opções de se imprimir a anamnese ou enviá-la por e-mail.

A criação de sinais para prevenção e tratamento foram as etapas mais difíceis e a metodologia utilizada é inédita e foi criada para a dissertação.

“Para a elaboração de cada sinal odontológico, foram realizadas oficinas com mesas clínicas demonstrativas, nas quais participavam a profa. Maria Celeste, Antônio, Thalita e eu. No tratamento de canal ou na doença periodontal, por exemplo, eu colocava todo o instrumental que iria utilizar sobre uma mesa e, com modelos de dente e de boca,  explicava ao Antônio, com tradução em Libras da Thalita, qual seria o procedimento do CD em cada caso”, conta Valéria.

A partir desse detalhamento técnico e, principalmente, visual, que é muito importante para o surdo, o prof. Antonio idealizava o sinal e conseguia explicar o procedimento em Libras. Com essas informações e o apoio da equipe, André elaborava a figura que iria compor o OdontoLibras. E a equipe de ciência da computação transportava a figura para o meio digital.

Apresentação completa

Valéria explica que as fases de prevenção em saúde bucal e de tratamento apresentam simultaneamente na tela do dispositivo eletrônico móvel três recursos técnicos diferentes para que o surdo compreenda a mensagem na íntegra. Há uso de minimalismo, realismo e flat design para sinais, ícones, imagens simplificadas do procedimento, além das filmagens do Antônio explicando tudo em Libras. “O surdo é muito visual, mas simplificamos em desenhos a realidade de um tratamento, que é muito complexa. Também preferimos as filmagens com uma pessoa a utilizar um avatar (figura de animação), porque em Libras as expressões faciais são fundamentais e avatares não são capazes de desempenhar expressões de maneira natural  como seres humanos”, destaca  Valéria.

O aplicativo é todo autoexplicativo, tanto para o paciente surdo como para o CD, que em algumas partes conta ainda com apoio de legendas.

Mas para Valéria, esse foi um começo. “Me apaixonei pelo projeto – afirma – e quero ampliar esse trabalho, para ajudar a pessoa surda, propiciar maior inclusão do atendimento odontológico desse paciente e dar um retorno nosso para a sociedade.”

Valéria Lima Avelar é formada pela UEL, especialista em odontopediatria, mestre em Clínica Odontológica com ênfase em Tecnologia Assistiva e atua como cirurgiã- dentista com clínica em Londrina (Paraná). Contato: [email protected].

Fonte: jornaldosite.com.br