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Atualmente a infecção odontogênica/generalizada tem sido considerada um dos problemas de difícil solução. Trata-se de uma patologia lenta, normalmente assintomática que demonstra a importância e a necessidade do tratamento odontológico frente a qualquer tipo de infecção com objetivo de evitar comprometimentos sistêmicos e futuras complicações. Na Odontologia, as infecções são principalmente causadas por bactérias, e nesses casos os mecanismos de defesa estão relacionados primordialmente com as barreiras naturais do hospedeiro, à resposta imune e à produção de anticorpos, podendo variar desde infecções bem localizadas, de baixa intensidade, que exigem apenas tratamentos locais, até infecções graves nos espaços faciais que causam risco de morte.

Com a divulgação na mídia do caso do músico Ricardo Bueno, ex-integrante do grupo Dominó, que, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, faleceu após uma septicemia (infecção generalizada), causada por um problema odontológico, a Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD), para elucidar sobre o tema, entrevistou o professor associado da disciplina de Endodontia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (Fousp) e professor convidado dos cursos de especialização e aperfeiçoamento profissional na Faculdade de Odontologia da APCD (FAOA), Manoel Eduardo de Lima Machado, que observou pontos importantes sobre a necessidade da visita frequente ao Cirurgião-Dentista e sobre a atuação do profissional voltada ao combate à infecção.

Segundo o especialista, recentemente alguns casos estão surgindo, mas na realidade, eles já acontecem há bastante tempo, e cada vez há mais provas significativas do relacionamento com as infecções dentárias e o restante do organismo, no caso, a infeção focal. “Esse tema já é levantado desde 1914 e mostrava um conceito radical que recomendava a extração de todos os dentes que se apresentavam com polpas necróticas justificando que estes elementos poderiam levar à disseminação de infecções para o resto do organismo. Mais tarde, em 1935, essa ideia foi derrubada, por diferentes ensaios, dentre eles, Fishn & Mac Lean que demostravam através de investigações que a bactéria utilizada no experimento se localizada apenas no interior do chumaço de algodão implantando nas mandíbulas de ratos, e que, no caso em questão, os autores interpretaram esta área como sendo o interior do canal radicular. Posteriormente, na década de 1980, por meio de uma série de trabalhos realizados por microbiologistas, como Möller, Lars Fabrizio, Hapassalo, dentre outros, utilzando novas tecnologias laboratoriais observaram que em determinada circunstância  algumas bactérias poderiam sobreviver fora do canal”.

Logo, fica o questionamento: “Como devemos entender e interpretar estes fatos?” Para o professor, em primeiro lugar é fundamental evitar o alarmismo. “Devemos afastar a todo custo uma situação que leve ao terror da população ou a manobras extremamente radicais, como cirurgias mutiladoras preventivas de ação sistêmica.” Segundo Machado, inúmeros trabalhos e boletins do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), indicam que 36% das mortes por problemas cardíacos e 45% das doenças cardíacas são de origem dental. “Temos trabalhos, por exemplo, que mostram casos de AVC que são oriundos de infecções dentais e aumentos de taxas de aterosclerose quando existe uma infecção dental permanente. Acredito que o que deve conduzir a população e a classe odontológica é uma motivação daquilo que estamos pregando já há bastante tempo, que é a prevenção, abrangendo todas as sua ações. Isto porque na imensa maioria desses casos, os mesmos estão relacionados à infecções assintomáticas nas quais, na maioria das vezes, o paciente pode não sentir a necessidade do tratamento possibilitando a persistência da infecção que poderá criar condições de comprometimento sistêmicos”.

Machado reitera que a questão é de extrema importância para a população, afinal, há metodologias e ferramentas que permitem detectar esse perigo. “Não é fato novo, e a incidência é pequena, podemos considerar como casos esporádicos e na maioria das vezes relacionados a presença de infecções assintomáticas, que o paciente muitas vezes permite que ela se desenvolva durante muito tempo. Existem sim, bactérias que se manifestam rapidamente, mas são muito poucas, o problema é o descaso com a saúde bucal que pode levar a essa condição”. O Cirurgião-Dentista retoma a questão do caso abordado pela mídia, e ainda adiciona: “Esses casos que estão surgindo sempre existiram, e começam a nos mostrar que o importante é o combate à infecção. Acredito que esse é um ponto significativo, pois a identificação crescente destes casos, está diretamente relacionada ao desenvolvimento de metodologias de diagnósticos que no passado não existia”.

Reeducação bucal está atrelada a visitas regulares ao Cirurgião-Dentista

Por conseguinte, o problema se acentua em doenças assintomáticas em que a conscientização da responsabilidade de se prevenir e fazer visitas frequentes ao Cirurgião-Dentista está reduzida. Neste ponto, diversos métodos têm se desenvolvido baseando-se em teorias e protocolos para viabilizar o diagnóstico dessas infecções e a indicação de tratamento para esses casos.  De acordo com Machado, “antigamente” muitos profissionais eram julgados com seu manejo com a dor, conseguir remover a dor do paciente ou não apresentar pós-operatório dolorido após suas intervenções”.  Mas, este é um conceito totalmente inadequado, o conhecimento de histopatologia demonstra claramente que a reação inflamatória é um procedimento normal e extremamente saudável, se constituindo na 1 fase da cicatrização e esta reação inespecífica podendo ser causada pelo próprio tratamento e se manifestar com a dor, calor e rubor. Assim sendo, o tratamento precisa estar baseado no foco de produzir-se a desinfecção, levar saúde ao paciente, e não preocupado com possíveis pós-operatórios, as ações clinicas são agressivas, quer na medicina quanto na Odontologia, ou seja, não podemos mais negociar com a infecção.

O tópico que precisa ser abordado, segundo Machado, é sobre a reeducação do paciente no sentindo de suas ações. Pensando no fato de que o indivíduo não faz visitas regulares ao Cirurgião-Dentista, isso abre portas para a infecção. “No passado, todo nosso procedimento era vinculado para tirar dor do que qualquer outro tipo de ação. Hoje, deixamos isso de uma maneira secundária, afinal, o Cirurgião-Dentista deve se preocupar com o combate à infecção. O paciente por outro lado, como não tem o discernimento dessa questão, deve ser reeducado e procurar o Cirurgião-Dentista para saber interpretar a diferença entre pós-operatório e fracasso, o fundamental é proteger a saúde geral do paciente”, corrobora o especialista.

Fonte: APCD – Central