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Um estudo conduzido por pesquisadores do Centro Médico de Boston e da Universidade de Boston, e publicado recentemente, mostrou que centenários e seus filhos possuíam melhor saúde bucal comparado com pessoas nascidas na mesma época. Assim, os pesquisadores sugeriram que a saúde bucal pode ser um indicador útil para saúde sistêmica e envelhecimento.

Segundo o Odontogeriatra, diretor do Departamento de Odontogeriatria da APCD Central, Marcio Luis Tonoli, uma saúde bucal adequada pode sim estar relacionada com a saúde sistêmica, tanto antes da doença se instalar quanto no controle de uma doença já instalada, proporcionando um envelhecimento com mais qualidade de vida. “A saúde bucal tem grande importância para o bem-estar geral de todos os indivíduos e, em especial, do paciente idoso. A pessoa que apresenta perda de dentes, mastigação deficiente, gengivite, periodontite, cáries, lesões na mucosa bucal, xerostomia, próteses inadequadas ou mal adaptadas, não consegue se alimentar corretamente, modificando sua alimentação e reduzindo a ingestão de nutrientes essenciais, o que pode facilitar ou potencializar as doenças sistêmicas”, esclarece.

“Quem nunca ouviu falar que a ‘saúde começa pela boca’? É um chavão que, sem dúvida alguma, merece toda a atenção. Ter chances adequadas de mastigação favorece o início de uma boa possibilidade de alimentação e melhor digestão. Além disso, devemos considerar que o que se põe na boca pode elevar a acidez da saliva, meio tão importante para a proliferação de bactérias que afetam a preservação da dentição”, considera a nutricionista gerontóloga, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – São Paulo (SBGG-SP) e nutricionista clínica da Divisão de Nutrição e Dietética do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (DND/ICHC/FMUSP), Elci Almeida Fernandes.

Elci acrescenta que essa sincronia da dentição com a alimentação proporciona melhores condições de digestibilidade e maior absorção dos nutrientes, e consequentemente qualidade de vida, propiciando a longevidade. “Uma alimentação saudável contribui para o bem-estar geral, inclusive para a saúde bucal, e vice-versa, pois há vários nutrientes presentes em alimentos que são capazes de conservar e manter os dentes fortes e saudáveis, assim como uma boa mastigação ajuda na absorção dos nutrientes. Possuir uma alimentação variada fornece vitaminas, minerais e fibras; sem esquecer a importância da água que ajuda a equilibrar o pH da boca e manter o constante fluxo de saliva”.

 

Saúde do idoso é reflexo de seus hábitos ao longo dos anos

Para a geriatra, coordenadora executiva do Centro Internacional de Informação para o Envelhecimento Saudável (Cies), Andrea Prates, que também atua com consultoria aplicada para a longevidade (www.comtemporanea.com.br), todas as questões de saúde na idade avançada (pessoas acima de 80 anos) é um reflexo do que aconteceu ao longo dos anos. “Uma pessoa que tenha tido uma alimentação saudável, sem muita ingestão de açúcares, que cuidou da saúde bucal com uma escovação mais cuidadosa, passando o fio dental, fez visitas regulares ao Cirurgião-Dentista para uma prevenção e profilaxia, tende a chegar a uma idade avançada com uma saúde bucal adequada. E não apenas com saúde bucal, mas com uma saúde sistêmica melhor, o que acaba repercutindo de forma positiva ou negativa quando na idade avançada”.

Embora sirva para todas as pessoas, a relação entre saúde bucal e sistêmica nas pessoas em idades mais avançadas, conforme Andrea, se torna mais intensa. “A questão da alteração fisiológica, da mastigação, da nutrição etc., é muito mais importante para a alimentação e para a saúde das pessoas mais velhas. E essa relação, saúde bucal e sistêmica, acaba se tornando até simbiótica. A saúde bucal pode afetar a saúde sistêmica de forma direta, por meio de uma periodontite, por exemplo, em que as placas bacterianas podem se desprender da gengiva e acabar ganhando outros lugares do organismo, causando problemas cardiovasculares como a endocardite; e de forma indireta, já que inflações provocam uma reação do sistema imunológico, causando um desequilíbrio no metabolismo que acaba alterando o funcionamento dos órgãos.”

O odontogeriatra concorda que a perda da dentição natural tem influência em diversos aspectos no organismo: estético, pronúncia, digestão e, principalmente, mastigação, e ainda está relacionada com a diminuição da ingestão de nutrientes, especialmente em idosos. “Muitos nutrientes são afetados com isso, incluindo nutrientes importantes na prevenção de câncer, doenças cardiovasculares, na defesa celular e combate aos efeitos da idade. A cárie e a doença periodontal são problemas bucais que podem ocasionar a perda do elemento dental; a doença periodontal, bastante presente nos idosos, é um fator de risco para muitas complicações sistêmicas como doenças respiratórias, complicações cardiovasculares, controle do diabetes, entre outras coisas. Portanto, ter uma boa saúde bucal, com maior número de dentes naturais possíveis, sem a presença de cáries e doença periodontal e quando necessário o uso próteses, que estas sejam adequadas e bem adaptadas, isso permitirá uma mastigação eficiente e uma ingestão adequada dos nutrientes importantes para o organismo da pessoa, proporcionando uma melhor condição de saúde geral”, reforça Marcio.

A geriatra considera importante ressaltar ainda as alterações fisiológicas comuns no processo de envelhecimento. “São alterações que ocorrem com a mastigação e com o paladar, fazendo com que a pessoa tenha mais dificuldade de sentir o sabor, há uma diminuição das fibras elásticas na musculatura, a pessoa vai perdendo a força mastigatória; há uma diminuição da saliva, uma mobilidade dos dentes, uma alteração na mucosa. Essas alterações funcionais na saúde bucal das pessoas mais velhas também têm de ser considerada, porque elas vão influir diretamente na questão nutricional, na diminuição do apetite. Por isso, acho muito interessante observar o estudo feito em Boston com uma abrangência maior tanto de curso de vida quanto da complexidade da saúde no envelhecimento e nessa interdependência da saúde bucal e da saúde sistêmica”, alerta Andrea.

 

Importância da boa nutrição para a longevidade

Os estudos científicos confirmam que os principais fatores que levam a um envelhecimento precoce são os erros alimentares cometidos durante a vida, além da exposição solar excessiva, o estresse e o hábito de fumar. “E dentre todos esses fatores, a nutrição é a que mais está ligada à qualidade de vida e a longevidade do ser humano. A alimentação, desde que nutricionalmente adequada, exerce papel fundamental no retardo do processo de envelhecimento, na melhora da performance mental e física, além de auxiliar na manutenção do peso adequado e na melhora do sistema imunológico. Assim, fazer check ups regulares, ter dentes limpos e uma boca saudável pode aumentar a longevidade e levar ao diagnóstico precoce, tratamento e prevenção de uma série de doenças de anemia, problemas cardíacos etc. De acordo com o jornal inglês Daily Mail, quando as pessoas cuidam da saúde bucal, estão cuidando também da saúde geral do corpo. Os especialistas estão descobrindo cada vez mais ligações entre a doença da gengiva – que afeta metade da população – e dezenas de outras doenças. Os estudos também mostram que o tratamento pode conduzir a melhorias em muitos casos”, ressalta a nutricionista/gerontóloga Elci Fernandes.

A especialista avisa que, alimentos fibrosos, como verduras, legumes e frutas, exigem maior mastigação permanecendo mais tempo em nossa boca. “Durante o processo de trituração dos alimentos, as impurezas vão sendo arrastadas devido o atrito do alimento com os dentes e o aumento da salivação também auxilia neste processo”. Alimentos gordurosos ajudam a prevenir cáries, pois formam uma película oleosa nos dentes protegendo-os. Valendo ressaltar, que devemos preferir gorduras de boa qualidade, como azeite extra-virgem, castanhas e abacate, sempre com moderação pelo seu alto valor calórico. Também há alimentos considerados ‘detergentes’ cuja função é eliminar resíduos de outros alimentos que ficaram aderidos a superfície dental. São eles: pera, maçã, cenoura, laranja, entre outros. O açúcar é considerado o dissacarídeo mais cariogênico que existe. Ele está presente em doces, balas, chicletes, refrigerantes, sucos industrializados e sorvetes. Estes alimentos provocam a queda do ph que por sua vez causa a desmineralização da superfície dentária, sendo assim, o risco de carie aumentará.O açúcar é fonte de energia, porém não se faz tão necessário na vida do ser humano, já que pães, arroz, frutas e batatas, presentes no dia a dia em nossa alimentação também fornecem energia”.

Por fim, Elci da algumas dicas:

  1. Evite beliscar entre as refeições. Isto inclui bebidas, como refrigerantes, mates, bebidas de soja, café, além de balas e chicletes com açúcar;
  2. Dê preferência aos alimentos crus e fibrosos, evitando os pastosos e grudentos;
  3. Ao ingerir de qualquer alimento ácido, aguarde meia hora para escovar os dentes, pois é o tempo que a saliva leva para neutralizar a acidez e tornar a escovação segura;
  4. Evite consumir açúcar à noite, a menos que seja seguida de uma perfeita higiene bucal, pois neste horário, a saliva diminui aumentando os riscos;
  5. Cuidados com os medicamentos que contém açúcar em sua composição, pois dependendo da frequência com que são ingeridos, podem estar relacionados à presença das cáries. Exemplos: xaropes, pastilhas para tosse, glóbulos homeopáticos, antiácidos, laxantes etc. Nestes casos, aumente a preocupação com a higiene bucal e busque orientação de um Cirurgião-Dentista.

 

Matéria publicada na edição Outubro/2014 do APCD Jornal